2015,  Textos

Lar

Sobre as coisas que eu mudei e não deveria
E sobre as coisas que precisava mudar.

 

 

Eu estou fria porque usufruo de um bloqueio protetivo que me faz lidar e suportar ao menos um pouco a distância dos meus pais e irmãos,

Uma frieza que diminui a dose de sentimentos produzidos e direcionados a eles numa tentativa falsa e inútil não controlada conscientemente por mim de que devo superá-los

Essa força me destrói em todos os outros aspectos.

Não é só a dose que deixo de migrar e produzir, fornecer, alimentar, nutrir.

Mas também o que recebo. O afeto diminuiu.

Talvez em resposta ao meu bloqueio. Talvez em circunstância da distância que retire uma parcela como pagamento por taxas estaduais.

Talvez no mesmo bloqueio infeliz que as pessoas que realmente estão próximas de mim conseguem reproduzir.

Então tenho carência, me autossaboto, destruo tudo, não consigo controlar, e esse caos piora em um ciclo louco.

E devo lidar com uma pressão de ser e fazer. De agradar.

Uma impossilbidade de questionar, de negar, de contradizer.

Uma necessidade de provar.

Um medo em errar, chatear, incomodar, desapontar.

Um silêncio, um vazio, um sono, um preso, um morto. Limites, ordens, vetos.

Todos os esforços ignorados, as faltas sob mira. As conquistas esquecidas. A expectativa alta.

Em minha testa marcado: a decepção / aquela que promete e não cumpre / aquela sem iniciativa e medrosa / aquela dependende dos outros.

Pior, aquela que perdeu atributos de antes, mudou, para pior, aquela que esqueceu quem era, regrediu.

Aquela que ficou parada, não conquistou nada.

Ao mesmo tempo, tão medrosa…

Por que me atribuem tanto ao medo?

Tive coragem em tentar, ficar, ficar de novo, continuar

Tive coragem afinal, mesmo que em demora, a decidir

Tive coragem de perceber que há muita coisa errada.

E o que fazer agora? Me pergunto se meu coração congelou para sempre. Se devo me importar.

E por mim? O que eu tenho para dizer a mim? O que eu digo de mim?

Eles também afinal, não mudaram?

Agora eu respondo, e me defendo…Posso muito mais ainda. Mas isso é perder doçura ou é aprender a me defender e a deixar de ser boba?

Deixar os outros fazerem o que bem querem de mim e ficar de otária?

Todos conseguem seguir suas vidas, sem medir esforços e sem hesitar, exatamente onde eu sempre me seguro.

Sem analisar tantas consequências ou fazer considerações.

Por que eu também não abro mão? Por que eu também não faço exceções? Taco um foda-se para tudo, me desligo de todos?

Eu estou sendo forte,

E estou sendo sensível em meio a essa frieza.

Sou forte porque decidi ficar, decidi tentar, arriscar, porque decidi.

Sou sensível porque considerei pessoas, fiz delas prioridade, mesmo sabendo que elas não fariam isso em troca

Sou sensível porque me permito sentir essa dor do que falam de mim

Porque apesar do meu corpo ter seguido uma direção, sei para onde meu coração aponta, o que ele pede e o que ele quer

Sou sensível a ponto de saber escutar todos meus apelos e chamados no vácuo do peito, e saber esperar.

E saber que faço por eles.

Não tem nada como o nosso lar, não há nada como os nossos pais.

Meus pais e irmãos são o sonho que tenho que alcançar, merecer e conquistar.

Sei que os esperarei sem mudar de intensidade. Sei que sempre lhes vou amar.

Sei que vamos voltar uns para os outros. Estaremos juntos novamente.

 

Isadora Mello, 2015

Créditos da Imagem: Acervo pessoal, foto tirada pela minha avó, Jansy Berndt, dos meus pais

 

 

 

 

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