2013,  Textos

Brechas

Meus olhares eram de admiração e medo, os seus, indecifráveis.

No sério e no homem, há o inseguro e o tímido, e eu vi uma brecha que você não tentava me excluir, ou não se importava, só precisávamos ser mais abertos, contar mais um com o outro, apressar e avançar alguns passos para tirar qualquer suspeita.

Gestos do passado fizeram sentido, e o futuro era certo para estabelecer de vez.

Devia ter sido antes, devia ter sido mais.

Será que teríamos aproveitado melhor? Algo aconteceria? Não, tudo tinha que ser do jeito que foi.

Nosso sufoco foi a contagem do tempo, nós somos essas fagulhas de que o amor pode acontecer, mas não permanece, e nas dificuldades, esquecimentos e desencontros, resta a saudade, a vontade e a certeza de que o amor existe.

Ele surgiu, ele mexeu com os sentidos, ele cedeu esperanças, confundiu rumos, misturou sonhos, ele não podia acontecer, porque é esse impossível, proibido é o que dá o filme de romance;

Então, o que aconteceu?

Você me deu o primeiro abraço, depois pediu para que eu tirasse fotos suas dizendo “para você sempre se lembrar de mim” e era praticamente sempre o primeiro a puxar assunto, conversamos bastante porque estávamos muitas vezes perto,

você prestava atenção, ria, falava, me contou segredos, desabafou, me fez rir e tínhamos papos inteligentes.

Você entrava em todas as minhas fotos.

Você fez as pegadinhas comigo de me assustar, de colocar pasta de dente enquanto eu dormia (ou ao menos só tentou) mas pelo banheiro, no chão, na luz, na maçaneta, espalhou pasta de dente pela casa inteira.

Apagou as luzes enquanto eu tomava banho e batia na porta.

Batia em mim com um mata mosquitos e jogava cereja na minha cabeça.

 

Isadora Mello, 2013

(encontrei esse trecho entre meus diários)

Créditos da Imagem: Weheartit

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