2011,  Textos

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Se de um lado, a internet abre as portas do mundo, do outro, ela nos fecha, nos dividindo em pequenos muros separados, onde por um momento, temos a idéia de que tudo circula ao nosso redor.

Escrevemos nossos textos, espalhamos nossos sentimentos, contamos nossos segredos, expomos nosso rosto, nosso corpo, nossa casa, nossa família.

E parece que quanto mais tentamos simplesmente não lidar com críticas, mais as pessoas tentam comentar cada ato nosso.

Passamos a fazer as coisas sem notarmos as conseqüências – coisas que deveriam pertencer ocultas, fotos e informações que não deviam ter sido publicadas… Nos intrometemos na vida de uma pessoa, Perdemos a noção de que podemos estar magoando.

Muitas vezes, passamos a imagem do que não somos, ou, mesmo quando estamos sendo sinceros as pessoas não captam a realidade – aparentamos sermos falsos e ficamos irreconhecíveis!

Ocorrem tantas confusões existenciais! Não sabemos quem somos, temos muitos “tipos de ser” que poderíamos adotar (aqueles que queremos ser, aquilo que os outros acham que nós somos, o que os outros queriam que fôssemos, e muitas mais possibilidades…)

Não nos reconhecemos, não somos sinceros o suficiente com nós mesmos e com nossos gostos, opiniões e sensações (pois estamos mais próximos das “modinhas” e conscientes ou não, estamos seguindo as tais tendências que se colam ao nosso redor, como espécie de fascinação, quase como obrigação).

Pessoas sentem que já nos conhecem o suficiente e por isso assim, no direito de se intrometerem na nossa vida! (mas não as culpemos, nossa vida pessoal está cada vez mais pública!)

Um caso normal vira polêmica em segundos, e é muito mais fácil atingirmos pessoas pelo computador já que permanecemos na tranqüilidade e na segurança de nossas próprias casas.

A internet deveria ser algo incrível, um lugar onde as pessoas se conheceriam e se comunicariam, um lugar que não teria limites, tanto para aprender, quanto para desenvolver, para expressar.

Um lugar onde cada pessoa diria o que sente e pensa e assim, cada um iria recolher o melhor de cada um, julgando o que não é bom, para tentar melhorar ou só por interpretar mesmo. Formando sua própria personalidade a partir do que gosta e não gosta! Mas até isso sofre influência da internet.

A internet acabou sendo um refúgio, uma máscara. Uma idealização de uma vida perfeita, um coração machucado que faz espetáculo com o sofrimento só para ganhar atenção, uma pessoa que não consegue ser ao vivo quem parece ser nas telas.

Chega uma hora que não consigo mais entender, por que nos sentimos tão demais a ponto de queremos atingir as pessoas que se expressam? Por que nos achamos tão demais a ponto de criarmos uma conta anônima e xingarmos os feitos e crenças de uma pessoa sem nem nos darmos o direito de justificar, de tentar ajudar com uma crítica construtiva? Achamos-nos tão demais, a ponto de começar a ligar demais para nós mesmos e simplesmente, esquecermos dos sentimentos dos outros.

É muito mais fácil fingir hoje em dia…

…Fingir que está sofrendo, fingir que está chorando só mudando o status, fingir que está bem com uma foto, fingir que está sentindo com um texto, fingir que se importa, com recados, fingir que gosta, tentando comprar pessoas e seguidores. Fingir que é fã, simplesmente porque colocou uma foto do artista, ou fingir que tem escrúpulos porque fingiu que se importa.

É fácil fingir quando não se olha nos olhos.

Eu não sei o que comentar, de um lado, adoro a liberdade de você falar o que pensa, pensar no que acredita, acreditar no que quiser, quiser o que sente, sentir o que fala, ser o que é e poder mostrar isso. Mas por outro, não tem como não sentir raiva de como as coisas vem seguindo cursos.

Querem a verdade? Ao invés de estarmos nos doando para a internet, para o mundo, mostrando quem somos, o que pensamos, o que sentimos, nós estamos deixando o mundo e a internet, estabelecerem isso para a gente.

E ao invés de pensarmos nos outros e nos importarmos com o que acontece, cada vez estamos só enxergando os nossos próprios umbigos.

Isadora Mello, texto de 2011.

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