2019,  Textos

Aquarela

Eu nunca vi a culpa tão forte como eu a vejo agora, eu quero tocar no ombro de todas as pessoas que eu encontrar pelo caminho e pedir desculpas. Eu lamento produzir tantas lágrimas e me afundar na minha própria água. E ser assim, tão maleável, tão inconsistente, tão volátil. Eu lamento viver em um mundo onde exigem que as pessoas sejam fortes, e há pessoas que encaram tragédias tão piores, e eu ser esse pingo. Essa gota, essa lágrima.

Eu acho que nunca me senti tão insignificante como hoje me sinto. O que é viver sem o peso de ter que se provar algo para alguém? O que me fez ser e ficar assim?

Eu me cultuo nessa necessidade de provar e falar, e me explicar, e no fundo, talvez ninguém tenha pedido, ninguém nem tenha percebido, ninguém tenha ao menos precisado.

Eu nunca sou nada para mim, eu sempre sou pelo medo da imagem que quero que as pessoas tenham de mim.

Eu queria me sentir segura, eu queria me sentir em paz em um lugar onde eu tivesse minhas certezas, onde eu pudesse ter alguma garantia, sobre qualquer coisa que fosse. Me pergunto se o mundo é assim, para eu ter que aprender com a efemeridade de tudo. Mas eu sinto a segurança por outros olhos, em outros corpos. E por que eu não a tenho em mim?

Eu tenho tanto a aprender ainda, a não ter vergonha, ou medo, de mim, medo de ser.

Eu preciso aprender a não me importar tanto. Eu tenho que aprender a abstrair.

Eu não tenho por onde caminhar, cada degrau do meu caminho é uma elevação que precisa do apoio de outra elevação anterior que não existe, invisível, um nada que se apoia no vácuo, pretensão sobre pretensão, sonho sobre ilusão, obstáculo em cima de obstáculo.

E hoje minha maior batalha, é a imagem que eu quero que você construa de mim.

Que você não tenha pena de mim, que você não lamente não me amar mais. Que você não me sinta tão dependente de você como eu faço você sentir que seja. Como eu fiz e faço com todas as pessoas que conheço. Como eu apoio meu sofrimento, e o explico, e o sinto, e o culpo em qualquer outra pessoa que não a mim.

Não queria ser tão inconstante assim, sempre em cima do muro, sempre em lugar nenhum. Aquela que sente muito, sente muito em e por sentir. Sinto muito.

Em voltar quando achei que já estava tudo certo, em insistir quando estava tudo errado, em me contradizer e atuar dispersa e divergente de qualquer coisa que me acomete.

De não viver a vida do jeito que ela vem até mim.

Só no meio do caminho me lembro de lembrar dele. Fico esperando o momento em que eu possa fazer o mesmo contigo. Te superar. Assim como já o fiz. Por sentimentos mais longos e maiores por outras pessoas. Como eu já devo ter feito tantas vezes com você, mas como insisto em repetir. Eu não deixo você ir, eu te puxo sempre. Eu não aceito mais, ninguém nunca mais ficar.

Eu não aceito mais a instabilidade.

Eu não quero estar sozinha. Eu não quero ser humilhada.

Será que é isso que você pensa de mim? Por que eu me preocupo tanto com o que você pensa de mim? E porque não me atento as coisas que você me diz? Ao que você me faz sentir?

 

Por: Isadora Mello, 25 de Abril de 2019

Créditos da Imagem: Weheartit

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