2018,  Textos

Depois da Ida

Você nunca me entendeu, e eu sou muito boa com despedidas,

Estou me segurando tanto pra não escrever hoje, mas não tem como fugir, vou tentar tornar isso o mais automático possível, como todas as outras coisas que escrevi que não foram para essa carta.

Hoje foi o dia que eu decidi jogar na sua cara, eu não queria ter precisado disso justamente apenas um dia antes de te encontrar de verdade, mas não há mais o que se fazer. Esse talvez tenha sido o meu maior e mais efetivo movimento para aceitar totalmente e de vez o nosso término, porque não apenas eu começo a te odiar com todas as forças, como eu estou fazendo de tudo para você me odiar também, é um pensamento muito interno e oculto esse que só agora eu estou admitindo, eu não teria feito metade daquilo que fiz, se eu não quisesse que esse fosse nosso fim.

Ou porque eu já teria que aceitar nosso fim mesmo, ou porque eu queria arranjar uma desculpa plausível (e já estar preparada, como sempre) para o nosso fatídico encontro amanhã, porque eu não sabia sequer imaginar se você ia fingir que eu não existia ou se você ia tentar conversar comigo, eu quis arrancar qualquer possibilidade que fugisse do meu controle, e eu decidi que pelo ódio, ódio que consome, ódio que vicia, que eu queria exaltar minha raiva para você, e para todos que te rodeiam, sua raiva por mim.

Pode pensar isso de mim, pode pensar o pior de mim, pode pensar que nunca me amou, pode concluir que eu não represente absolutamente nada na sua vida.

Não me importa mais, não me importa absolutamente nada.

Sinto que foi fácil me esquecer e deixar de gostar de você, você nunca me deu muitos motivos para insistir e alimentar esses sentimentos, aliás, muito pelo contrário, você me deu muitas mais razões para querer te abandonar, te odiar, pensar o pior de você. Você parece ter lutado com todas suas forças exatamente para isso.

E hoje você me mostrou que você não me conhece, que você nunca me conheceu, que você não me entende, que você nunca me entendeu, e que você nunca será capaz de me entender, por isso eu preciso desenhar pra você (e um livro infantil, no final das contas), fazer um filme, escrever uma música (e mesmo assim com o risco de você continuar não entendendo).

Não é possível ficar com alguém que não seja capaz de entender quem você seja, esse você aqui, no caso sou eu. Entender quem você é, quem eu mesma sou, e o que eu sou pra você. E se você não entender, é porque você não me mereceu, você não me merece, e porque você não vai me merecer.

É por isso que nem o amor e nem a consideração importam, e porque, mais do que nunca, e mais forte do que sempre, eu aceito o fim, eu jamais voltaria pra você.

Porque eu te odeio.

Por mais que eu sinta saudade de certas coisas, são coisas muito específicas que prefiro que vivam na minha memória, são coisas muito pequenas que eu até me esqueço. Coisas pelas quais eu não tenho alma ou energia interna o suficiente para ativar essas lembranças e viver delas.

Num dos mil discursos que eu me imaginei tendo com você, eu dizia: sinto falta de muitas coisas, sinto falta daquilo que eu sabia que era amor quando a gente fazia amor juntos, mas que não sentia falta da solidão, da espera, do silêncio, de esperar as piores coisas, de não entender o motivo para a maior parte das coisas, de não me sentir amada, de ter motivos para ficar insegura, de não me sentir calma ou em segurança, não sentia falta de encontrar justificativas para e por você, ou para te desculpar por assuntos óbvios, por você não e NUNCA me entender. De maneira que, as saudades positivas, essa ideia de saber o que era amar e ser amada, não compensassem, não valessem a pena. Principalmente porque, afinal, eu posso amar e ser amada por outras pessoas que não você.

De todos os meus rituais de despedida pra você, acho que hoje é o dia que eu mais sinto com força essa intenção. Para mim está mais do que claro que você não fará nenhum movimento, e eu realmente não quero, não quero que você se arrependa, que você finalmente acorde e perceba tudo.

Eu quero que você sinta as exatas mesmas coisas que eu, que no caso é finalmente perceber que, o amor acabou (ele existiu, mas ele acabou, mas isso também, tanto faz e nem importa). Quero que você perceba que eu fiz mal pra você, que eu não sou o melhor pra você, que no fundo no fundo, nem faz tanta falta assim, não faz tanta diferença.

Eu aprendo agora sobre deixar partir, sobre desapego, sobre orgulho, sobre consideração, sobre a superficialidade e efemeridade das coisas, e de como damos muito mais importância do que realmente deveria. E que na real, tanto faz, tanto faz como você vai olhar pra trás e me ver, como vai me sentir, como vai se lembrar de mim, que tanto fez e tanto faz se foi amor mesmo, se fez diferença mesmo ou não. Porque a verdade são vários momentos, são vários instantes. E um dia você já disse que eu era a melhor coisa que já tinha te acontecido, e um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. E mesmo se eu não for mais, e mesmo se um dia você mudar de ideia, mesmo se você tiver mentido, mesmo se você tiver se enganado. Tudo isso não vai importar. E essa será afinal minha lição. E tem coisas que a gente nunca fica sabendo mesmo depois não é mesmo?

Aliás, quem mais do que eu para descobrir tantas razões (posteriores) para justificar vários momentos do presente? Quando as razões vem depois das próprias causas e atitudes. Vem posterior até da própria justificativa.

Eu só queria me manter com essa ideia, esse pensamento, essa ideologia. Queria saber por quanto tempo posso pensar, acreditar e lutar por tudo isso. Quanto tempo vai durar?

Tudo era uma questão de tempo.

 

Isadora Mello, 2018

Créditos da Imagem: Cena da série “Sense 8”

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