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	<title>2015 &#8211; Psiqueros</title>
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	<title>2015 &#8211; Psiqueros</title>
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		<title>A mais curta história de amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Isadora Mello]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Jun 2019 18:37:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2015]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
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					<description><![CDATA[O sol amanhecia em um amarelo vibrante, eu não consegui acreditar que estava acordada o dia inteiro desde ontem e que a gente só saiu da festa porque fomos expulsos, eu nunca havia virado a noite antes de maneira a atravessar a madrugada e já ser sete horas da manhã do dia seguinte sem dormir. Aquele friozinho de sereno, o dia cinza azulado ganhando cor dourada, o asfalto solitário e longíquo diante de nós desde embaixo dos nossos pés. Os poucos carros que passavam, mas os quais todos mexiam com a gente, buzinavam, ameaçavam nos atropelar, passageiros que colocavam suas caras e mãos pra fora e gritavam, principalmente por causa das nossas chamativas roupas de festa. Algo parecia muito errado naquele momento. Como se não devêssemos estar ali porque era muito tarde, ou muito cedo. Ou porque parecia que tínhamos congelado no tempo, partido para o futuro ou para o passado sem vestígio, sem caminho, sem passar, e de repente existíamos sem termos vivido. O tempo escorrendo pelos dedos sem que pudéssemos ver. A conversa está toda cortada em minha mente. Às vezes eu era espectadora, às vezes eu guiava tudo como uma host de um programa de televisão ou uma cheerleader em torcida, ou às vezes eu era questionada. Só sabia que de repente eu sabia o nome dele, e o sobrenome, e o nome da mãe dele. De repente eu zoava a voz rouca dele – que tinha ficado assim naquele momento e ele não havia percebido até direcionar as primeiras palavras a nós. Eu disse: &#8220;você está com voz de idoso, quem sabe sua voz normal quando não rouco seja toda esganiçada&#8221;. E ele disse que o absurdo de verdade era ele ter sido o bebê da voz mais grossa possível. Eu morri de rir com a imagem que consegui fazer daquela cena na minha cabeça, de um bebê de voz grossa, e comecei a zoar ele na maior intimidade, ele se defendia brincando, me empurrando gentilmente ou colocando a mão na minha cara, tampando meus olhos ou boca, como se nos conhecêssemos desde sempre e aquilo fosse “uma coisa nossa”. Eu não parei de voltar a falar da voz dele, porque eu estava a bêbada inconsequente que não percebe quando a piada já se esgotou e perdeu a graça. Ele parou bem sério uma hora e disse: &#8220;Tem que me ouvir na cama&#8221;. Eu fiquei sem reação. Não sabia nem se ele estava me cantando de verdade ou só querendo me parar. A gente descobriu que o carro dele estava no exato fim do mundo que gostaríamos de chegar. A paisagem era bonita, parecíamos sozinhos e desolados. O cerrado era de um amarelo vívido, o tempo começava a esquentar e o lago estava logo ao lado. A gente era capaz de correr e nos atirarmos à água naquele exato segundo porque já estávamos imprudentes o suficiente. Às vezes o caminho se resumia em mato e em campos, e eu tirava meus sapatos e andava pela grama, os pés úmidos naquele orvalho geladinho, as plantinhas que grudam. Ele sempre ao meu lado, até ser só eu e ele. E a conversa foi ficando mais séria, menos devaneio ou piada, menos bêbados. Era sobre: para quem somos, porque somos, e como somos. E muito do que ainda iríamos ser. Ele era bonito, alto, moreno, vistoso, pintas pelo rosto, papo agradável. E o toque, o toque especial era ver que ele falava e ouvia, e que a gente combinava. E como o destino havia sido certeiro em nos conectar naquele momento. Nos imprevistos da vida que nos une. Nas coincidências. Onde parece fazer sentido. Onde parece que algo deve ser, porque tem que ser. Então foi toda uma conversa sobre literatura e cinema, de uma forma que eu não podia nem acreditar em como ela se desenvolvia e eu me encontrava. E ele estava em êxtase também, por eu entendê-lo. As nossas palavras até combinavam, a gente dizia os mesmos nomes ao mesmo tempo ou apenas nos víamos estupefatos um com o outro: “sim!! É isso que eu ia dizer!” Eu fiquei contente e orgulhosa porque um dos meus lados adormecidos recuperavam a vida. É como se eu pudesse falar de cultura e do mundo. Não só porque eu soubesse, mas porque eu sabia falar, eu sabia viver, porque eu era apaixonada pelas coisas que tinha prazer em lhe contar. Como se saindo da minha boca, elas ganhassem mais cor e consistência até serem paupáveis o suficientes para ele ver e aderir, porque confiaria em mim, no que ele sentiria quando ele dissesse. Como se pudéssemos passar horas juntos falando sobre isso, em cenários diversos&#8230; diários&#8230; Então de repente eu me vi cheia de conhecimento e confiança, orgulhosa de ter falado tudo o que eu sei em um caminho aberto para as palavras serem livres e fluirem. É como se até então eu não tivesse consciência do que eu sei, do que eu sou capaz, e por consequência, o que eu sou. E tivesse a oportunidade de mostrar, de saber que é o tipo de coisa que alguém deve te escutar, e falar com você, que deve existir um diálogo, uma troca, algo que geralmente não consigo encontrar, alguém que escute, que me leve a novos caminhos, alguém com quem compartilhar o próprio viver. Foi isso tudo o que ele me fez sentir, em poucas horas de caminhada e conversa a sós. O grupo estava ali, mas parecia só nós dois no final das contas. Eu sabia que quando acabasse nosso contato ao chegarmos em nosso destino, eu iria precisar de mais, eu ia necessitar saber como encontrá-lo de novo, como tê-lo por mais tempo. Ele até citou trechos de textos para mim e retratou. Não havia nada como me sentir inteligente com alguém inteligente, sem boicotes, sem competição, sem melhor ou pior, só nos dois compartilhando coisas boas da vida. Em uma troca saudável, complementos ao que sabíamos, introdução a novas decobertas, do que um acrescentava para o outro. O que mostrávamos por nossos olhos. Ele podia ter ido embora, mas resolveu ficar. Saímos todos juntos para comer e então não éramos só nós dois, porque os outros agora recebiam nossa atenção e não conseguíamos nos diespersar só em nós dois como antes. Acho que ele quis aumentar o tempo junto oferecendo carona, mas por eu ser a menor entre meus amigos eu fui logo deslocada para o banco de trás, não pudemos mais ficar próximos conversando sem ter que atravessar por todas as cabeças dos outros, então acabei dormindo e nem falei com ele. Na hora de nos despedirmos, quando ele chegou no prédio, todos desceram do carro enquanto ele encarava o volante,  eu restei no meio sozinha, fui a última e ele virou. Eu ali no banco de trás, o tempo congelou, os olhos dele queriam dizer tanta coisa porque ele sempre tinha algo a falar. E eu quis ver mais, como sempre quis ver, súplica, vontade, sofrimento, sinal, pedido. Quis ver que o que ele queria falar era: &#8211; “fique” ou “nos encontraremos de novo” Mas ele apenas disse “beijo” Disse tão longamente e olhando tão fixamente para mim como se pedisse para que eu o beijasse ali mesmo. Mas meu amigo me esperava do lado de fora do carro segurando a porta. Eu tive pouco tempo para pensar e eu sei que sou uma maluca que vê demais, imagina muito, exagera. E eu não queria arriscar. Coloquei a palma da minha mão na boca e mandei um beijo voado – e foi ali que eu senti que ele queria mais – mas eu apenas parti agradecendo. Sentindo e querendo vê-lo de novo, vê-lo logo, vê-lo mais, vê-lo muito, sempre. Mas eu apenas parti, e não olhei para trás. &#160; &#160; Por: Isadora Mello, 2015 Créditos da Imagem: Weheartit]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O sol amanhecia em um amarelo vibrante, eu não consegui acreditar que estava acordada o dia inteiro desde ontem e que a gente só saiu da festa porque fomos expulsos, eu nunca havia virado a noite antes de maneira a atravessar a madrugada e já ser sete horas da manhã do dia seguinte sem dormir.</p>
<p>Aquele friozinho de sereno, o dia cinza azulado ganhando cor dourada, o asfalto solitário e longíquo diante de nós desde embaixo dos nossos pés. Os poucos carros que passavam, mas os quais todos mexiam com a gente, buzinavam, ameaçavam nos atropelar, passageiros que colocavam suas caras e mãos pra fora e gritavam, principalmente por causa das nossas chamativas roupas de festa. Algo parecia muito errado naquele momento.</p>
<p>Como se não devêssemos estar ali porque era muito tarde, ou muito cedo. Ou porque parecia que tínhamos congelado no tempo, partido para o futuro ou para o passado sem vestígio, sem caminho, sem passar, e de repente existíamos sem termos vivido.</p>
<p>O tempo escorrendo pelos dedos sem que pudéssemos ver.</p>
<p>A conversa está toda cortada em minha mente. Às vezes eu era espectadora, às vezes eu guiava tudo como uma host de um programa de televisão ou uma cheerleader em torcida, ou às vezes eu era questionada.</p>
<p>Só sabia que de repente eu sabia o nome dele, e o sobrenome, e o nome da mãe dele.</p>
<p>De repente eu zoava a voz rouca dele – que tinha ficado assim naquele momento e ele não havia percebido até direcionar as primeiras palavras a nós.</p>
<p>Eu disse: &#8220;você está com voz de idoso, quem sabe sua voz normal quando não rouco seja toda esganiçada&#8221;. E ele disse que o absurdo de verdade era ele ter sido o bebê da voz mais grossa possível. Eu morri de rir com a imagem que consegui fazer daquela cena na minha cabeça, de um bebê de voz grossa, e comecei a zoar ele na maior intimidade, ele se defendia brincando, me empurrando gentilmente ou colocando a mão na minha cara, tampando meus olhos ou boca, como se nos conhecêssemos desde sempre e aquilo fosse “uma coisa nossa”.</p>
<p>Eu não parei de voltar a falar da voz dele, porque eu estava a bêbada inconsequente que não percebe quando a piada já se esgotou e perdeu a graça. Ele parou bem sério uma hora e disse: &#8220;Tem que me ouvir na cama&#8221;.</p>
<p>Eu fiquei sem reação.</p>
<p>Não sabia nem se ele estava me cantando de verdade ou só querendo me parar.</p>
<p>A gente descobriu que o carro dele estava no exato fim do mundo que gostaríamos de chegar. A paisagem era bonita, parecíamos sozinhos e desolados. O cerrado era de um amarelo vívido, o tempo começava a esquentar e o lago estava logo ao lado. A gente era capaz de correr e nos atirarmos à água naquele exato segundo porque já estávamos imprudentes o suficiente.</p>
<p>Às vezes o caminho se resumia em mato e em campos, e eu tirava meus sapatos e andava pela grama, os pés úmidos naquele orvalho geladinho, as plantinhas que grudam.</p>
<p>Ele sempre ao meu lado, até ser só eu e ele.</p>
<p>E a conversa foi ficando mais séria, menos devaneio ou piada, menos bêbados. Era sobre: para quem somos, porque somos, e como somos. E muito do que ainda iríamos ser.</p>
<p>Ele era bonito, alto, moreno, vistoso, pintas pelo rosto, papo agradável. E o toque, o toque especial era ver que ele falava e ouvia, e que a gente combinava.</p>
<p>E como o destino havia sido certeiro em nos conectar naquele momento. Nos imprevistos da vida que nos une. Nas coincidências. Onde parece fazer sentido. Onde parece que algo deve ser, porque tem que ser.</p>
<p>Então foi toda uma conversa sobre literatura e cinema, de uma forma que eu não podia nem acreditar em como ela se desenvolvia e eu me encontrava. E ele estava em êxtase também, por eu entendê-lo. As nossas palavras até combinavam, a gente dizia os mesmos nomes ao mesmo tempo ou apenas nos víamos estupefatos um com o outro: “sim!! É isso que eu ia dizer!”</p>
<p>Eu fiquei contente e orgulhosa porque um dos meus lados adormecidos recuperavam a vida. É como se eu pudesse falar de cultura e do mundo. Não só porque eu soubesse, mas porque eu sabia falar, eu sabia viver, porque eu era apaixonada pelas coisas que tinha prazer em lhe contar.</p>
<p>Como se saindo da minha boca, elas ganhassem mais cor e consistência até serem paupáveis o suficientes para ele ver e aderir, porque confiaria em mim, no que ele sentiria quando ele dissesse. Como se pudéssemos passar horas juntos falando sobre isso, em cenários diversos&#8230; diários&#8230;</p>
<p>Então de repente eu me vi cheia de conhecimento e confiança, orgulhosa de ter falado tudo o que eu sei em um caminho aberto para as palavras serem livres e fluirem. É como se até então eu não tivesse consciência do que eu sei, do que eu sou capaz, e por consequência, o que eu sou.</p>
<p>E tivesse a oportunidade de mostrar, de saber que é o tipo de coisa que alguém deve te escutar, e falar com você, que deve existir um diálogo, uma troca, algo que geralmente não consigo encontrar, alguém que escute, que me leve a novos caminhos, alguém com quem compartilhar o próprio viver.</p>
<p>Foi isso tudo o que ele me fez sentir, em poucas horas de caminhada e conversa a sós. O grupo estava ali, mas parecia só nós dois no final das contas. Eu sabia que quando acabasse nosso contato ao chegarmos em nosso destino, eu iria precisar de mais, eu ia necessitar saber como encontrá-lo de novo, como tê-lo por mais tempo.</p>
<p>Ele até citou trechos de textos para mim e retratou. Não havia nada como me sentir inteligente com alguém inteligente, sem boicotes, sem competição, sem melhor ou pior, só nos dois compartilhando coisas boas da vida. Em uma troca saudável, complementos ao que sabíamos, introdução a novas decobertas, do que um acrescentava para o outro. O que mostrávamos por nossos olhos.</p>
<p>Ele podia ter ido embora, mas resolveu ficar. Saímos todos juntos para comer e então não éramos só nós dois, porque os outros agora recebiam nossa atenção e não conseguíamos nos diespersar só em nós dois como antes. Acho que ele quis aumentar o tempo junto oferecendo carona, mas por eu ser a menor entre meus amigos eu fui logo deslocada para o banco de trás, não pudemos mais ficar próximos conversando sem ter que atravessar por todas as cabeças dos outros, então acabei dormindo e nem falei com ele.</p>
<p>Na hora de nos despedirmos, quando ele chegou no prédio, todos desceram do carro enquanto ele encarava o volante,  eu restei no meio sozinha, fui a última e ele virou.</p>
<p>Eu ali no banco de trás, o tempo congelou, os olhos dele queriam dizer tanta coisa porque ele sempre tinha algo a falar.</p>
<p>E eu quis ver mais, como sempre quis ver, súplica, vontade, sofrimento, sinal, pedido.</p>
<p>Quis ver que o que ele queria falar era:</p>
<p>&#8211; “fique” ou “nos encontraremos de novo”</p>
<p>Mas ele apenas disse “beijo”</p>
<p>Disse tão longamente e olhando tão fixamente para mim como se pedisse para que eu o beijasse ali mesmo. Mas meu amigo me esperava do lado de fora do carro segurando a porta. Eu tive pouco tempo para pensar e eu sei que sou uma maluca que vê demais, imagina muito, exagera. E eu não queria arriscar.</p>
<p>Coloquei a palma da minha mão na boca e mandei um beijo voado – e foi ali que eu senti que ele queria mais – mas eu apenas parti agradecendo.</p>
<p>Sentindo e querendo vê-lo de novo, vê-lo logo, vê-lo mais, vê-lo muito, sempre.</p>
<p>Mas eu apenas parti, e não olhei para trás.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por: Isadora Mello, 2015</p>
<p>Créditos da Imagem: Weheartit</p>
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		<title>Lar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Isadora Mello]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 20:08:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2015]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
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					<description><![CDATA[Sobre as coisas que eu mudei e não deveria E sobre as coisas que precisava mudar. &#160; &#160; Eu estou fria porque usufruo de um bloqueio protetivo que me faz lidar e suportar ao menos um pouco a distância dos meus pais e irmãos, Uma frieza que diminui a dose de sentimentos produzidos e direcionados a eles numa tentativa falsa e inútil não controlada conscientemente por mim de que devo superá-los Essa força me destrói em todos os outros aspectos. Não é só a dose que deixo de migrar e produzir, fornecer, alimentar, nutrir. Mas também o que recebo. O afeto diminuiu. Talvez em resposta ao meu bloqueio. Talvez em circunstância da distância que retire uma parcela como pagamento por taxas estaduais. Talvez no mesmo bloqueio infeliz que as pessoas que realmente estão próximas de mim conseguem reproduzir. Então tenho carência, me autossaboto, destruo tudo, não consigo controlar, e esse caos piora em um ciclo louco. E devo lidar com uma pressão de ser e fazer. De agradar. Uma impossilbidade de questionar, de negar, de contradizer. Uma necessidade de provar. Um medo em errar, chatear, incomodar, desapontar. Um silêncio, um vazio, um sono, um preso, um morto. Limites, ordens, vetos. Todos os esforços ignorados, as faltas sob mira. As conquistas esquecidas. A expectativa alta. Em minha testa marcado: a decepção / aquela que promete e não cumpre / aquela sem iniciativa e medrosa / aquela dependende dos outros. Pior, aquela que perdeu atributos de antes, mudou, para pior, aquela que esqueceu quem era, regrediu. Aquela que ficou parada, não conquistou nada. Ao mesmo tempo, tão medrosa&#8230; Por que me atribuem tanto ao medo? Tive coragem em tentar, ficar, ficar de novo, continuar Tive coragem afinal, mesmo que em demora, a decidir Tive coragem de perceber que há muita coisa errada. E o que fazer agora? Me pergunto se meu coração congelou para sempre. Se devo me importar. E por mim? O que eu tenho para dizer a mim? O que eu digo de mim? Eles também afinal, não mudaram? Agora eu respondo, e me defendo&#8230;Posso muito mais ainda. Mas isso é perder doçura ou é aprender a me defender e a deixar de ser boba? Deixar os outros fazerem o que bem querem de mim e ficar de otária? Todos conseguem seguir suas vidas, sem medir esforços e sem hesitar, exatamente onde eu sempre me seguro. Sem analisar tantas consequências ou fazer considerações. Por que eu também não abro mão? Por que eu também não faço exceções? Taco um foda-se para tudo, me desligo de todos? Eu estou sendo forte, E estou sendo sensível em meio a essa frieza. Sou forte porque decidi ficar, decidi tentar, arriscar, porque decidi. Sou sensível porque considerei pessoas, fiz delas prioridade, mesmo sabendo que elas não fariam isso em troca Sou sensível porque me permito sentir essa dor do que falam de mim Porque apesar do meu corpo ter seguido uma direção, sei para onde meu coração aponta, o que ele pede e o que ele quer Sou sensível a ponto de saber escutar todos meus apelos e chamados no vácuo do peito, e saber esperar. E saber que faço por eles. Não tem nada como o nosso lar, não há nada como os nossos pais. Meus pais e irmãos são o sonho que tenho que alcançar, merecer e conquistar. Sei que os esperarei sem mudar de intensidade. Sei que sempre lhes vou amar. Sei que vamos voltar uns para os outros. Estaremos juntos novamente. &#160; Isadora Mello, 2015 Créditos da Imagem: Acervo pessoal, foto tirada pela minha avó, Jansy Berndt, dos meus pais &#160; &#160; &#160; &#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sobre as coisas que eu mudei e não deveria<br />
E sobre as coisas que precisava mudar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu estou fria porque usufruo de um bloqueio protetivo que me faz lidar e suportar ao menos um pouco a distância dos meus pais e irmãos,</p>
<p>Uma frieza que diminui a dose de sentimentos produzidos e direcionados a eles numa tentativa falsa e inútil não controlada conscientemente por mim de que devo superá-los</p>
<p>Essa força me destrói em todos os outros aspectos.</p>
<p>Não é só a dose que deixo de migrar e produzir, fornecer, alimentar, nutrir.</p>
<p>Mas também o que recebo. O afeto diminuiu.</p>
<p>Talvez em resposta ao meu bloqueio. Talvez em circunstância da distância que retire uma parcela como pagamento por taxas estaduais.</p>
<p>Talvez no mesmo bloqueio infeliz que as pessoas que realmente estão próximas de mim conseguem reproduzir.</p>
<p>Então tenho carência, me autossaboto, destruo tudo, não consigo controlar, e esse caos piora em um ciclo louco.</p>
<p>E devo lidar com uma pressão de ser e fazer. De agradar.</p>
<p>Uma impossilbidade de questionar, de negar, de contradizer.</p>
<p>Uma necessidade de provar.</p>
<p>Um medo em errar, chatear, incomodar, desapontar.</p>
<p>Um silêncio, um vazio, um sono, um preso, um morto. Limites, ordens, vetos.</p>
<p>Todos os esforços ignorados, as faltas sob mira. As conquistas esquecidas. A expectativa alta.</p>
<p>Em minha testa marcado: a decepção / aquela que promete e não cumpre / aquela sem iniciativa e medrosa / aquela dependende dos outros.</p>
<p>Pior, aquela que perdeu atributos de antes, mudou, para pior, aquela que esqueceu quem era, regrediu.</p>
<p>Aquela que ficou parada, não conquistou nada.</p>
<p>Ao mesmo tempo, tão medrosa&#8230;</p>
<p>Por que me atribuem tanto ao medo?</p>
<p>Tive coragem em tentar, ficar, ficar de novo, continuar</p>
<p>Tive coragem afinal, mesmo que em demora, a decidir</p>
<p>Tive coragem de perceber que há muita coisa errada.</p>
<p>E o que fazer agora? Me pergunto se meu coração congelou para sempre. Se devo me importar.</p>
<p>E por mim? O que eu tenho para dizer a mim? O que eu digo de mim?</p>
<p>Eles também afinal, não mudaram?</p>
<p>Agora eu respondo, e me defendo&#8230;Posso muito mais ainda. Mas isso é perder doçura ou é aprender a me defender e a deixar de ser boba?</p>
<p>Deixar os outros fazerem o que bem querem de mim e ficar de otária?</p>
<p>Todos conseguem seguir suas vidas, sem medir esforços e sem hesitar, exatamente onde eu sempre me seguro.</p>
<p>Sem analisar tantas consequências ou fazer considerações.</p>
<p>Por que eu também não abro mão? Por que eu também não faço exceções? Taco um foda-se para tudo, me desligo de todos?</p>
<p>Eu estou sendo forte,</p>
<p>E estou sendo sensível em meio a essa frieza.</p>
<p>Sou forte porque decidi ficar, decidi tentar, arriscar, porque decidi.</p>
<p>Sou sensível porque considerei pessoas, fiz delas prioridade, mesmo sabendo que elas não fariam isso em troca</p>
<p>Sou sensível porque me permito sentir essa dor do que falam de mim</p>
<p>Porque apesar do meu corpo ter seguido uma direção, sei para onde meu coração aponta, o que ele pede e o que ele quer</p>
<p>Sou sensível a ponto de saber escutar todos meus apelos e chamados no vácuo do peito, e saber esperar.</p>
<p>E saber que faço por eles.</p>
<p>Não tem nada como o nosso lar, não há nada como os nossos pais.</p>
<p>Meus pais e irmãos são o sonho que tenho que alcançar, merecer e conquistar.</p>
<p>Sei que os esperarei sem mudar de intensidade. Sei que sempre lhes vou amar.</p>
<p>Sei que vamos voltar uns para os outros. Estaremos juntos novamente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Isadora Mello, 2015</p>
<p>Créditos da Imagem: Acervo pessoal, foto tirada pela minha avó, Jansy Berndt, dos meus pais</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Claro</title>
		<link>https://psiqueros.com/claro/</link>
					<comments>https://psiqueros.com/claro/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isadora Mello]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Apr 2019 19:18:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[2015]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>
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					<description><![CDATA[Quando eu olhar para o lado, eu espero que você já não se encontre mais por aqui. Você por acaso não pensou que ao se calar, esse silêncio dedurava seu comportamento? A luz tinha acabado, breu completo, daqueles que as pessoas não conseguem visualizar nem a ponta do próprio nariz, que têm dificuldade em distinguir se estão com os olhos abertos ou fechados. Eu relaxava no sofá, você se apoiava ao lado em pé, e havia uma garota conversando contigo; Alguns celulares ajudavam com um brilho fosco, deformando alguns dos rostos que usufruíam dos aparelhos. A janela mais próxima exibia um céu cinzento, nem para os postes da rua restava energia. A menina se cansou daquele ambiente lotado, com cada pessoa imersa em seus próprios telefones, ninguém conversava, nem sobre o que seria feito dos planos com a ausência imprevista da luz e nem para fazerem alguma piada da situação. Ela pegou a mochila e encostou no seu braço: -eu vou indo&#8230; você vem junto? E foi aí, nessa ausência de resposta que consegui perceber o quão ingenuamente babaca sem intenção você era. E como eu tinha sido uma otária em pensar que você era apenas gentil, que você era diferente, e me punindo de qualquer pensamento sexual que eu pudesse inventar. Mas no fundo, estava certa. O seu silêncio era um balançar de cabeça na minha direção, com um sorrisinho de canto, aquela viradinha de olho explicando: “tenho planos”. Ainda bem que não havia luz, eu ia detestar qualquer que fosse a forma que você conseguisse apontar para minha pessoa. Você podia ao menos ter disfarçado, apenas dito que não ia. Mas quis me colocar no meio, testemunha ou vítima para dar mais sustento? Então diria que estava ali comigo, direto. Não esse silêncio, não essa mão escondendo a boca em um sussurro de quem tá me ocultando e lidando comigo por baixo do pano. Não com vergonha, eu sei, nem porque quer manter segredo. Mas como se eu fosse um lanchinho especial da meia noite e você tivesse que tomar cuidado com as palavras antes que eu escapasse. Você praticamente entregou. “Ela mal sabe” você pensou da sua amiga, pensou de mim. E eu mal sabia mesmo. Sua amiga insistiu: “Vou embora e você vai junto” Vai mesmo. Foda-se. Leva ele&#8230; Sei lá, tanto faz Mas foi ela que estragou seu jogo. Que te estragou para mim. Como uma sonsa, a reação deu eco. “Ah, entendi” Ou seja, deixando óbvio que houve alguma mímica melhor acobertada no ótimo álibi que aquele escuro era. “Ah entendi, é aquela menina lá que você tava me dizendo antes que tava afim de comer?”  &#8211; Era nessas frases que você queria chegar, meu bem, eu narrava mentalmente “Aquela que você falou?” – Você não respondia nada, tanta mímica devia estar te dando torcicolo. Eu ali do lado no sofá, e você não desconfiou que eu poderia desconfiar&#8230; pena. Confiou demais no escuro e esqueceu que os outros sentidos ficam mais aguçados, os da audição, os da intuição. Sua amiga também ganha o diploma de descrição mil, boa sorte com a próxima garota Toquei no braço da sua amiga passando por cima do seu corpo: “Você tá saindo? Tô indo com você” – eu disse para ela. Se quisesse que eu ficasse. Que fosse mais direto. Se quisesse que eu soubesse que estava só ali e por ali ficaria porque eu estava, então que fosse mais claro. Mesmo sem luz. &#160; Por: Isadora Mello, 2015 Créditos da Imagem: Wehearit]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu olhar para o lado, eu espero que você já não se encontre mais por aqui. Você por acaso não pensou que ao se calar, esse silêncio dedurava seu comportamento? A luz tinha acabado, breu completo, daqueles que as pessoas não conseguem visualizar nem a ponta do próprio nariz, que têm dificuldade em distinguir se estão com os olhos abertos ou fechados.</p>
<p>Eu relaxava no sofá, você se apoiava ao lado em pé, e havia uma garota conversando contigo; Alguns celulares ajudavam com um brilho fosco, deformando alguns dos rostos que usufruíam dos aparelhos. A janela mais próxima exibia um céu cinzento, nem para os postes da rua restava energia.</p>
<p>A menina se cansou daquele ambiente lotado, com cada pessoa imersa em seus próprios telefones, ninguém conversava, nem sobre o que seria feito dos planos com a ausência imprevista da luz e nem para fazerem alguma piada da situação.</p>
<p>Ela pegou a mochila e encostou no seu braço:</p>
<p>-eu vou indo&#8230; você vem junto?</p>
<p>E foi aí, nessa ausência de resposta que consegui perceber o quão ingenuamente babaca sem intenção você era. E como eu tinha sido uma otária em pensar que você era apenas gentil, que você era diferente, e me punindo de qualquer pensamento sexual que eu pudesse inventar. Mas no fundo, estava certa. O seu silêncio era um balançar de cabeça na minha direção, com um sorrisinho de canto, aquela viradinha de olho explicando: “tenho planos”.</p>
<p>Ainda bem que não havia luz, eu ia detestar qualquer que fosse a forma que você conseguisse apontar para minha pessoa.</p>
<p>Você podia ao menos ter disfarçado, apenas dito que não ia. Mas quis me colocar no meio, testemunha ou vítima para dar mais sustento? Então diria que estava ali comigo, direto. Não esse silêncio, não essa mão escondendo a boca em um sussurro de quem tá me ocultando e lidando comigo por baixo do pano. Não com vergonha, eu sei, nem porque quer manter segredo. Mas como se eu fosse um lanchinho especial da meia noite e você tivesse que tomar cuidado com as palavras antes que eu escapasse.</p>
<p>Você praticamente entregou. “Ela mal sabe” você pensou da sua amiga, pensou de mim.</p>
<p>E eu mal sabia mesmo.</p>
<p>Sua amiga insistiu: “Vou embora e você vai junto”</p>
<p>Vai mesmo. Foda-se. Leva ele&#8230; Sei lá, tanto faz</p>
<p>Mas foi ela que estragou seu jogo. Que te estragou para mim. Como uma sonsa, a reação deu eco.</p>
<p>“Ah, entendi”</p>
<p>Ou seja, deixando óbvio que houve alguma mímica melhor acobertada no ótimo álibi que aquele escuro era.</p>
<p>“Ah entendi, é aquela menina lá que você tava me dizendo antes que tava afim de comer?”  &#8211; Era nessas frases que você queria chegar, meu bem, eu narrava mentalmente</p>
<p>“Aquela que você falou?” – Você não respondia nada, tanta mímica devia estar te dando torcicolo.</p>
<p>Eu ali do lado no sofá, e você não desconfiou que eu poderia desconfiar&#8230; pena.</p>
<p>Confiou demais no escuro e esqueceu que os outros sentidos ficam mais aguçados, os da audição, os da intuição.</p>
<p>Sua amiga também ganha o diploma de descrição mil, boa sorte com a próxima garota</p>
<p>Toquei no braço da sua amiga passando por cima do seu corpo:</p>
<p>“Você tá saindo? Tô indo com você” – eu disse para ela.</p>
<p>Se quisesse que eu ficasse. Que fosse mais direto.</p>
<p>Se quisesse que eu soubesse que estava só ali e por ali ficaria porque eu estava, então que fosse mais claro.</p>
<p>Mesmo sem luz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por: Isadora Mello, 2015</p>
<p>Créditos da Imagem: Wehearit</p>
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