2018,  Trabalhos

Artigo Crítico – Os aspectos da Tragédia Grega na peça teatral “Frei Luis de Sousa”

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RESUMO

Este artigo crítico avalia a peça “Frei Luis de Sousa” do autor Almeida Garrett através da perspectiva da tragédia grega, reconhecendo e descobrindo os elementos que compõem a tragédia e os associando com o enredo. Em um primeiro momento, há uma reflexão acerca do contexto histórico em que a peça foi escrita, demonstrando a influência da Revolução de Setembro de 1836, e entre as consequências, as reformas nos teatros e a necessidade da criação de um repertório de peças inteiramente portuguesas. Os aspectos da própria vida pessoal de Garrett também são levados em consideração para sustentar a criação da obra, como por exemplo, sua separação seguida de um segundo casamento e o nascimento de sua filha.

RESUMEN

Este artículo crítico evalúa la pieza “Frei Luis de Sousa” del autor Almeida Garrett a través de la perspectiva de la tragedia griega, reconociendo y descubriendo los elementos que componen la tragedia y los asociando con el argumento. Al principio, hay una reflexión del contexto histórico en el que la pieza fue escrita, lo que demuestra la influencia de la Revolución de Septiembre de 1836 (las reformas en los teatros y la necesidad de crear un repertorio de piezas totalmente portuguesas son algunas de las consecuencias). Los aspectos de la propia vida personal de Garrett también se toman en consideración para sostener la creación de la obra, como por ejemplo, su separación seguida de un segundo matrimonio y el nacimiento de su hija.

 


 

INTRODUÇÃO

 

O intuito deste artigo crítico é o de avaliar a obra de Almeida Garrett, a peça “Frei Luis de Sousa” pela ótica da tragédia grega, encontrando as semelhanças com o gênero, elementos e características presentes que sustentem a identificação desta estrutura. Escrever uma tragédia estimável era um sonho antigo do próprio Almeida Garrett, e ele concretiza esse sonho ao estruturar e depois reconhecer a obra “Frei Luis de Sousa” como tal. Este trabalho busca encontrar as outras motivações que levaram Garrett a escrever a obra, partindo do pressuposto que há muitas outras intenções, e de que o autor esteja superando a si mesmo, exatamente porque a obra reflete-se além, ela demonstra-se e representa muito mais do que apenas a realização de um sonho.

 


OS ASPECTOS DA TRAGÉDIA GREGA NA PEÇA TEATRAL
“FREI LUIS DE SOUSA”

– Contextualização da criação da obra: “Frei Luis de Sousa” –

 

contexto histórico e político que vai ditar a construção da peça teatral “Frei Luis de Sousa” escrita pelo autor português Almeida Garrett é a ascensão ao poder de Passos Manuel, político liberalista e uma das figuras chave da Revolução de Setembro de 1836. O período ao qual Passos esteve no poder é marcado por um considerável número de reformas, muitas delas essenciais e imprescindíveis para a consolidação de aspectos que foram extremamente importantes na época e que atualmente ainda são visíveis na sociedade de Portugal.  Passos Manuel incumbe Almeida Garrett a propor um plano para a fundação e a organização do “Teatro Nacional de Lisboa” e que ele também comunicasse todas as providencias necessárias para a realização de aprimoramentos aos teatros já existentes.

Um dos motivos que levam Passos Manuel a atribuir esta tarefa a Garrett é porque foram os artigos escritos por ele em “O Português Constitucional” um dos gatilhos da própria Revolução de Setembro. Almeida Garrett compõe um plano que resulta o “Decreto de 15 de Novembro”, que estabelece um Conservatório Geral de Arte Dramática (de importância nacional) e decreta as inspeções-gerais de Teatros. Garrett promove a fundação do Teatro Nacional (que é atualmente o “Teatro Nacional D. Maria II”, em Lisboa), contribui na redação da Constituição de 1838 e elabora um repertório de peças teatrais portuguesas, com uma intenção formativa de direcionar o público aos valores castiços, ao gosto estético e ao culto à liberdade, que foram os principais focos, intenções e inspirações motivadoras de Garrett. Foi concebendo este repertório que Garrett escreveu as seguintes peças teatrais: “Um Auto de Gil Vicente”, “D. Filipa de Vilhena”, “O Alfageme de Santarém” e “Frei Luis de Sousa”, cujos anos das estreias são respectivamente, 1838, 1840, 1842 e 1843.

O Alfageme de Santarém (1841) – drama em três atos de Almeida Garrett, forma esta peça com D. Filipa de Vilhena e com o Frei Luis de Sousa um tríptico de quadros da história de Portugal, em momentos agudos de exaltação das virtudes cívicas. É uma obra válida pela qualidade de estilo e pelo conteúdo das figuras, ainda que a ação dramática seja enfraquecida pelo alindamento folclórico. (RODRIGUES, Tavares Urbano. Dicionário de Literatura, 1982,
p. 37).

O contexto particular em relação à vida privada de Almeida Garrett é justamente o momento em que ele retorna de Bruxelas à Lisboa, separa-se de sua esposa, Luisa Midoso, que o teria traído, e conhece a Adelaide Deville, com quem se apaixona e com quem tem uma filha, Maria, porém Adelaide vem a falecer em 1841. Este período é o qual Almeida Garrett está no auge de sua carreira literária.

Garrett está agora no auge da sua carreira literária: junta uma surpreendente frescura a um gosto maleável e seguro; explora e conclui a espontaneidade das impressões com admirável tato; expõe ideias estéticas prudentes e renovadoras; é um autêntico mentor. (COELHO, Jacinto do Prado. Dicionário de Literatura, pp. 364-365).

Frei Luis de Sousa, de 1843, em três atos, é a obra-prima de Almeida Garrett, pode-se perceber a partir da análise de sua citação em “Notas a Memória do Conservatório Real” que o próprio autor a compara com as grandes obras dos três grandes mestres da tragédia grega que foram Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, e comenta a influência do teor cristão que atua sobre a peça e a distingue ainda mais, substituindo o medo das personagens trágicas pelos deuses pelo temor a Deus e a devoção aos ideais cristãos:

Nessa história, digo, há toda uma simplicidade de uma fábula antiga. Casta e severa como as de Ésquilo, apaixonada como as de Eurípedes, enérgica e natural como as de Sófocles, têm, demais do que essoutras, aquela unção e delicada sensibilidade que o espírito do Cristianismo derrama por toda ela… […] Esta é uma verdadeira tragédia – se as possa haver sobre fatos e pessoas comparativamente recentes (GARRETT, Almeida. Doutrinas de Estética Literária, pp. 26-29).

Almeida Garrett reflexiona que se as tragédias forem possíveis de ocorrer sobre pessoas e fatos comparativamente recentes, então que ele pode concluir que “Frei Luis de Sousa” seja uma tragédia verdadeira. É importante ressaltar que o fato de ele ter composto uma tragédia é a concretização de um velho sonho seu como autor, e que desde muito jovem ele estudou, admirou e se aprimorou na escrita clássica.

 

Toda a perspectiva dramática do século XIX é comandada pelo admirável esforço de Garrett para dotar o seu país dum teatro válido, literária e cenicamente. Formado na leitura do teatro clássico – que imitou em novo –, o seu gosto repeliu sempre o exagero caricatural dos melodramas, de origem francesa ou italiana, que pulularam nos palcos da capital durante o primeiro terço do século, de mão dada com a ópera. (ROCHA, Andrée Crabbé. Dicionário de Literatura,
p. 1.070).

Conclui-se essa formação do autor na leitura clássica a partir do conhecimento de que em 1809, aos dez anos, Garrett e sua família, precisando exilar-se na Ilha Terceira, por causa das Invasões Francesas, Garrett é educado na disciplina clássica por dois tios, o Dr. João Carlos Leitão e o árcade D. Frei Alexandre da Sagrada Família. É desde muito jovem que ele entra em contato com o teatro clássico e com o gênero da tragédia, onde essas inspirações e conhecimentos formam, transformam e contribuem em sua erudição. É sabido que a partir dessa época, ele escreveu precocemente odes anacreônticas (o que provém de Anacreonte, poeta lírico grego, reconhecido por suas canções de amor, onde cantava sobre as musas, Dionísio e o amor), e em sua juventude, escreveu obras teatrais como “Mérope” (1820) e “Catão” (1821) onde sensivelmente e fielmente seguiu os moldes da escrita teatral clássica.

Desde o despontar da sua vocação dramática até o fim da sua vida, nunca deixou de se sentir nele, por um lado, a ponderação e o equilíbrio dessa formação inicial, e, por outro, o mesmo ardente entusiasmo pelas coisas de teatro, desde o gosto de pessoalmente representar ou de criar um elenco de nível até ao propósito de constituir um repertorio original, que tivesse mérito literário. (ROCHA, Andrée Crabbé. Dicionário de Literatura, p. 1.070).

O próprio autor, Almeida Garrett, desempenhou o papel da personagem Telmo Pais o fiel escudeiro e aio da peça “Frei Luis de Sousa” em 1843 num teatro particular demonstrando seu gosto em representar. Como comentado em “Memórias biográficas de Garrett” de Francisco Gomes de Amorim (1882).

 


 

– A Estrutura da Tragédia –

 

Estudando o formato da tragédia clássica da antiguidade, percebe-se que a tragédia se consiste em um conflito que leva as personagens a se interrogarem sobre seus destinos e sobre o sentido da existência, e a se questionarem sobre as dificuldades ou problemas causados pela influência de leis dos mais poderosos, por aqueles que desempenham papéis de autoridade ou por mandados dos deuses que exercem força sobre suas existências e destinos.

Esse sistema de forças, que pesam e condensam a liberdade individual das personagens fazem com que eles necessitem se opor e precisem desafiar as ordens e os deuses, e esse desafio leva o nome de hybris. “A hybris responde a vingança, a punição, o ressentimento, uma espécie de ciúme ferido pela corajosa atitude assumida pelo homem, – a nemesis divina.” (REBELO, Luís de Sousa. Dicionário de Literatura, p. 1.062, 1994).

Os acontecimentos da tragédia, como esquematiza Luís de Sousa Rebelo no “Dicionário de Literatura” (1982) se desenrolam de acordo com os atos das personagens e as ironias e ilusões do destino, da necessidade do fatum ou da ananké – (que carrega o significado de: fatalidade ou destino). Casos inevitáveis e necessários ocorrem e ligam-se uns aos outros, de modo que o curso do drama assume um rumo inesperado que leva o nome de catástrofe, essa mudança brusca na ordem dos fatos é muitas vezes levada através do reconhecimento de algo até então que nenhum personagem suspeitava e esse reconhecimento chama-se agnórise.

A orientação da ação segue uma intensidade estabelecida, que é uma das ferramentas necessárias para conceder o atributo dramático que tanto evidencia a tragédia. No começo, essa primeira fase da ação leva o nome de epistáse e os acontecimentos progridem de maneira neutra, porém logo começa a demonstrar uma carga emocional, que acabam por trazer suspeitas ao espectador de que algo terrível esteja prestes a ocorrer, causando tensão e curiosidade.

É essa expectativa que faz com que o espectador passe a tomar partido e a participar do que se passa em cena e dos sentimentos (muitas vezes as apreensões e inquietudes) das personagens. O conflito é consequência de um exagero egocêntrico ou libertário do protagonista, e vai progredindo de maneira cada vez mais densa e alimentando consequências desastrosas. Quando o ponto máximo da ação ­– que é o conflito do protagonista com as autoridades da cidade ou com os deuses (ou até com ambos) – é atingido, ocorre o clímax.

A tragédia termina na resolução, que geralmente é uma reviravolta súbita e feroz dos acontecimentos – a catástase. É essa última fase que resume o âmago da tragédia e onde todas as consequências finais das ações dos protagonistas e das outras personagens a ele ligadas se sintetizam.

O agenciamento da ação dramática da tragédia visava a exibição das consequências terríveis (pathos) do descomedimento humano, de modo a sugerir no espectador, o temor religioso ou a sua simpatia, dependendo assim, naturalmente, das intenções e da concepção filosófica do tragediógrafo. (REBELO, Luís de Sousa. Dicionário de Literatura, p. 1.062).

Para aplicar essa estruturação da tragédia na obra “Frei Luis de Sousa”, já partindo da ideia de que Garrett adotou a forma da tragédia grega na construção do enredo, e que as ações se desenvolvem obedecendo ao esquema estabelecido (hybris, clímax, agnórise, pathos e ananké), é preciso primeiramente descrever o enredo da obra, e depois reconhecer os elementos.

 


 

– A Obra: “Frei Luis de Sousa” –

 

O enredo é que D. Madalena de Vilhena, depois de sete anos de espera e de buscas, casa-se com o fidalgo D. Manuel de Sousa Coutinho ao dar como falecido seu primeiro marido, D. João de Portugal, que lutou na batalha de Alcácer-Quibir. Madalena e D. Manuel têm uma filha, D. Maria de Noronha, que sofre de Tuberculose e é uma garota de extrema sensibilidade. Apenas o escudeiro Telmo é quem espera o retorno de seu amo, D. João e que acredita que ele ainda esteja vivo. A casa está rodeada de assustadores presságios. Em uma sexta-feira, um Romeiro vindo da Terra Santa revela notícias sobre
D. João de Portugal. A família, condenada pela desonra, procura a redenção e marido e mulher decidem se converter.

A partir da análise dos elementos, a hybris, ou seja, o desafio ao destino, ocorre no momento em que Madalena casa-se com seu segundo marido,
D. Manuel, sem ter ainda a confirmação da morte de seu primeiro marido,
D. João de Portugal. O espectador participa dos sentimentos de apreensão e inquietude das personagens no que diz respeito aos presságios negativos que rodeiam a casa sugerindo que D. João ainda esteja vivo e que ele possa retornar.

Madalena de Vilhena, sempre mergulhada no mais profundo terror, e dilacerada pela memória do primeiro marido e pelo receio de o ver retornar a qualquer momento, concentra sua ações no sentido de resistir à separação inevitável e na recusa do que há muito pressentia ser seu destino. É nela que se concentra todo o peso dos presságios agourentos que marcam a peça desde o início. (VECHI, Carlos Alberto. A Literatura Portuguesa em Perspectiva, p. 43).

O clímax de fatalidade acontece justamente com o aparecimento do Romeiro que anuncia ter notícias de D. João, confirmando que ele esteja vivo. A mudança brusca acontece através do reconhecimento – a agnórise – que no caso é a descoberta de que o Romeiro é o próprio D. João.

João de Portugal, o romeiro, embora pareça uma pessoa ascética e humilde, faz-se presente no drama como aquele que volta para castigar um amor adulterino. Ao provocar a tragédia da família de Manuel de Sousa, preço que todos pagam pelo erro cometido por D. Madalena, revida-se do destino, atirando os outros ao sofrimento: desconhece o perdão e a caridade. Ainda que tente remediar a situação, pedindo que Telmo diga a todos que ele era um impostor, sua atitude é mais um gesto para proteger o próprio nome do que para aliviar o sofrimento alheio. (VECHI, Carlos Alberto. A Literatura Portuguesa em Perspectiva, p. 43).

O pathos da peça, ou seja, a função existente na tragédia para mostrar ao espectador os atos que levam às consequências terríveis, seja por temor ou simpatia religiosa, é a morte da jovem Maria ao descobrir ser desonrada por ser fruto de um casamento ilegítimo. E como Carlos Alberto Vechi citou: “A ananké (o destino), presente desde o início do conflito, dirige e amarra todos os acontecimentos” (VECHI, Carlos Alberto. A Literatura Portuguesa em Perspectiva, 1994).

Garrett envolveu o enredo na sublime atmosfera da tragédia grega. Compreendeu que a essência da tragédia não é a ação inesperada, mas a contemplação de pungentes situações paradigmáticas, em que o Homem defronta o enigma do Destino. O melhor do Frei Luis de Sousa consiste em criar um ambiente de ansiedade, um “clima” de negros presságios, e em iluminar as almas em Deus, ou os dados, vão dilacerar. Nessa família destroçada por uma fraqueza, um “erro” de amor, cada um dos seus membros vive, de modo pessoal, o drama coletivo. Em Madalena e em Telmo há também, segunda a ótica do cristianismo, dramas de consciência. (COELHO, Jacinto do Prado. Dicionário de Literatura, p. 353).

Teófilo Braga, em seu livro “Garrett e os dramas Românticos” (1905) constata que a intenção de Almeida Garrett ao escrever sobre a personagem Maria provavelmente provenha da inspiração de sua própria filha, com a senhora Adelaide Deville, que também se chamava Maria, e a qual Garrett poderia antecipadamente sentir a vergonha da filha a partir da revelação de sua origem infamante, visto que seja fruto de seu segundo casamento. Jacinto do Prado Coelho em “Dicionário de Literatura”, completa:

Deste modo, a peça seria um apelo patético a favor das inocentes vítimas da moral social, bem diversa da moral cristã. Pensando na filha, Garrett teria procurado ganhar para Maria a piedosa adesão dos espectadores. (COELHO, Jacinto do Prado. Dicionário de Literatura, p. 364).

O cuidado de Almeida Garrett com a estrutura de sua peça teatral é parte fundamental para a absorção de suas intenções, dentre elas a do renascimento pátrio, para um aperfeiçoamento de símbolos, expressões e valores. O filósofo Aristóteles, que analisou a tragédia de maneira psicossocial,  considerava que a tragédia se destinava a purificar o espectador das suas tendências imorais ou antissociais, como dito por Luís de Sousa Rebelo, no “Dicionário de Literatura” (1982):

Aristóteles analisou ainda a tragédia dum ponto de vista psicossocial, para ele o elo que se estabelecia entre o espectador e a ação dramática, essa participação interessada no devir dos acontecimentos, causadora de estados de endopatia, tinha uma função de catharsis, que, segundo a interpretação crítica mais corrente, se destinava a purificar o espectador das suas tendências imorais ou antissociais, uma espécie de válvula de escape de forças psíquicas e cargas emocionais, que não encontram conduto próprio para se liberarem, situa-se assim, a tragédia clássica num plano de utilidade social. (REBELO, Luís de Sousa. Dicionário de Literatura, p. 1.062).

Assim, Garrett, sempre um ótimo observador, enxergando a crise da sociedade portuguesa, formula reflexões imprescindíveis, retrata seu povo, sua pátria, exalta os costumes e a cultura portuguesa, trata dos temas nacionais, retoma o passado, expõe medos e dificuldades, mas mesmo assim, demonstra suas esperanças em relação ao futuro. Ele disponibiliza aos seus leitores todo esse universo, que clarifica, enriquece e ensina, compartilha suas observações e reflexões. Almeida Garrett reescreveu uma história lendária, baseada na personalidade real de Manuel de Sousa Coutinho e ao transformá-la em uma peça teatral trágica faz com que essa peça possua também uma utilidade social.

Frei Luis de Sousa não é, de resto, uma obra de acaso. […] Relevante exemplo do que um espírito moderno podia tirar duma tragédia agônica, sem esperança, batido por uma cruel fatalidade, ainda hoje o drama reflete luminosamente virtudes e defeitos dum povo, ao mesmo tempo em que analisa aspectos do eterno e universal comportamento humano. Sentimento de honra, amor, perplexidade diante das injustiças, tudo se encontra encarnado nessa peça singular, certamente a mais significativa de quantas se escreveram em Portugal. (ROCHA, Andrée Crabbé. Dicionário de Literatura, p. 1.071).

 

 


 

CONCLUSÃO

 

A obra de Garrett está em constante contraste e está paralela a vida de Portugal, capaz de permitir e proporcionar reflexões de extrema importância. A partir da obra: “Frei Luis de Sousa”, Almeida Garrett propõe o desejo patriótico e nacionalista, a reflexão sobre a moral social em contraste com a moral cristã, busca a absolvição em nome de sua filha exaltando sua inocência em relação aos conceitos da desonra. Conclui-se que mais do que representar a concretização de um sonho particular seu de escrever uma célebre tragédia, ao escrever essa obra, Garrett está propondo um sonho de pátria, tradição e nacionalismo, tão necessários, ou seja, Garrett quando escreveu esta obra, trouxe e realizou sonhos para e pelo seu próprio povo.

Garrett é ainda hoje, ao lado de Camões, o escritor que mais enalteceu e dignificou a sua pátria. Espírito aberto e europeu, tem dos fatos e dos seres uma visão lúcida e viva, que o conduziria, naturalmente, a tirar partido do gênero histórico no palco. Mas percebeu que não bastava uma evolução exterior, mais ou menos exata e pitoresca, de temas do passado, para se fazer bom teatro. Era preciso enriquecê-lo, dar ao episódio um conteúdo ideológico de ordem geral. (ROCHA, Andrée Crabbé. Dicionário de Literatura, p. 1.070).

 


 

BIBLIOGRAFIA

 

AMORIM, Francisco Gomes. MEMÓRIAS BIOGRÁFICAS DE GARRETT. Lisboa: Imprensa Nacional, 1881-1884.

BRAGA, Teófilo. GARRETT E OS DRAMAS ROMÂNTICOS. Porto: Livraria Chardron, 1905.

COELHO, Jacinto do Prado; REBELO, Luís de Sousa; ROCHA, Andrée Crabbé e RODRIGUES, Tavares Urbano. DICIONÁRIO DE LITERATURA. São Paulo: Lavra Livros, Limitada, 1982.

GARRETT, Almeida. DOUTRINAS DE ESTÉTICA LITERÁRIA. Lisboa: Arcádia, 1964.

GARRETT, Almeida. FREI LUÍS DE SOUSA. Porto: Porto Editora, 2017.

VECHI, Carlos Alberto. A LITERATURA PORTUGUESA EM PERSPECTIVA. São Paulo: Editora Atlas S.A, 1994.

 

 

 

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