Textos

Caixa Registradora

O que resta de mim são os compromissos, é levar o cachorro para passear, fazer as compras da semana, trabalhar na sexta na caixa registradora e ficar de babá do irmão menor,

o que resta de mim são os favorzinhos, aguar as plantas, buscar a irmã na escola, fazer um jantar ou outro, ficar quinta e sexta na caixa registradora.

O que resta de mim são as lembranças, como o cachorro sempre gostou mais de você e ficaria empacando no caminho até o momento em que você o tivesse na coleira, como apostávamos corrida com os carrinhos de compra, e você podia ficar com a parte das bebidas, condimentos e carne, e eu dos produtos de limpeza e perecíveis.

O que resta de mim são as risadas, suas 1001 maneiras de me distrair no trabalho mexendo no celular pelas suas costas e discando para a loja em trote, dando sustos debaixo do balcão, provar algumas roupas zoadas e desfilar.

O que resta de mim é perceber que o Téo só vai dormir se você cantar para ele com seu violão, e que ele pergunta de você, e que ele quer suas caretas, e que eu quero companhia para a novela até meus pais chegarem.

O que resta de mim é a vontade de repetir a dose da guerra de mangueira no jardim, os beijos roubados de um você que surgia de trás dos arbustos, seu discurso de que urina faz bem para as plantas quando você se aliviava no jardim.

O que resta de mim é a saudade, de você no banco do copiloto, falando de como eu dirijo mal, que quase atropelei uma velhinha e o grupinho de amigas da Luiza no carro, as menininhas que queriam ser suas namoradas e os meninos que queriam ser você;

O que me resta é fazer macarrão porque não tenho criatividade para testar novas receitas, modernidade para pesquisar na internet e coragem para misturar ingredientes.

O que me resta é saber que duas pessoas podem deixar trabalhos mais leves se estiverem juntas, e que eu não devia ter me acostumado em te ter para sempre.

O que resta é mudar aqueles discursos bobos de que eu adoro a minha rotina e de que o importante não é procurar algo especial para se fazer, mas encontrar no que você faz que possa ser especial.

Porque não era minha rotina que era boa, agora eu passeio com o cachorro, vou ao mercado, fico de babá, trabalho de caixa registradora, dou carona, águo as plantas, cozinho,

e a única coisa que espero, é que quando o telefone toque na loja, ele seja você.

Para eu dizer que mais que precisar e sentir falta, eu quero você.

Porque era você a minha rotina.

 

(Isadora Mello, 2013)

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